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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Olhar a vida com os olhos de ver - Entendendo o bullying


"Se podes olhar, vê, se podes ver, repara".
(José Saramago)

Muitas pessoas que passaram por experiências de exposição pública associadas ao bullying, ao constrangimento e ao excesso de críticas e cobranças, tornaram-se adultos traumatizados e reclusos em seus mundos de limites restritos.

São indivíduos atormentados por sentimentos negativos gerados por traumas psíquicos, onde a culpa, o abandono e a perda foram determinantes na formação de hábitos que adequaram estas pessoas a resistirem ao medo que sentem do mundo exterior, através da criação de um mundo à parte onde se sentem relativamente seguras.

Tal situação que envolve depressão, traços fóbicos de comportamento social ou fobia social propriamente dita, e pânico, faz com que o indivíduo sinta-se em público como o foco de atenções, onde "olhares ameaçadores" que convergem para si, repercutem em seu inconsciente como se ele estivesse sendo observado através de um olhar punitivo. Situação que o liga aos traumas de sua infância.

Portanto, são inúmeros os casos nos quais o indivíduo fica submisso da sintonia infantil, ou seja, sente-se pressionado a adotar uma postura reclusa e antissocial por receio de reagir ao "estado de coisas" e sentir-se novamente exposto a experiências semelhantes as que lhe provocaram sofrimento no passado. Desta forma, "adaptado" para evitar a reprodução do que foi, o inconsciente, através dos mecanismos de defesa, trata de proteger o indivíduo do mal maior já vivenciado.

No entanto, as limitações resultantes da proteção dos mecanismos de defesa do inconsciente travam o fluir do crescimento integral da pessoa, porque, subjetivamente, estimulam a reclusão social como condição para que a mesma não corra o risco da exposição em ambiente público como ocorreu no pretérito.

Prisioneiro de um ciclo vicioso sem data de validade, o indivíduo não percebe que a sua vida é controlada pelos "fantasmas" do passado e, submisso a um estado de coisas que vigora por tempo indeterminado, não permite que se processe em seu interior, uma reação consciente e libertadora.

Cativas de processos obsessivos anímicos ou anímico-espirituais, estas pessoas passam parte, grande parte ou toda a vida realimentando o seu medo via sentimentos negativos originados na infância e, na maioria dos casos, com sintonias além da vida intra-uterina, que os acompanham em seus padrões emocional-comportamentais.

O olhar ameaçador que trazem da infância e que se projeta para o mundo externo em forma de insegurança, acompanha estes indivíduos até o momento em que eles percebem que a vida deve ser olhada, observada, de dentro pra fora, isto é, que o agente do processo vital deve assumir o comando de sua realidade ao enfrentar os desafios que são inerentes à sua experiência repleta de lições e aprendizados.

É o momento de encarar a vida com os próprios olhos, que representam as janelas da alma, e não mais permitir que o olhar do outrem continue, de uma forma transferencial, limitando o seu crescimento.

Neste sentido, algumas técnicas podem ser aplicadas durante o processo psicoterapêutico, e uma delas, simples por natureza e eficiente no resultado, é a seguinte: a pessoa que se enquadra neste perfil é estimulada a sair de casa e apropriar-se de seu olhar através dos órgãos da visão, os olhos. Um exercício de observação que pode ser inicialmente em um lugar tranquilo como num parque onde pessoas, pássaros, árvores, animais de estimação, entre outros, fazem parte da dinâmica do local.

A sistematização desta técnica leva, aos poucos, a pessoa a enfrentar o medo do contato com o mundo externo. Um exercício de observação e percepção que devolve ao seu legítimo dono, um olhar sobre a vida a partir de si mesmo e não do outrem. Um desafio que, geralmente, traz resultados positivos no sentido da pessoa adquirir autoconfiança, auto-aceitação e integrar-se socialmente.

Muitos humanos passam pela vida sem perceber que possuem "olhos de ver" além das mazelas e das experiências traumáticas que são inerentes à sua natureza. Quando assumem este olhar, o medo se dissipa e a vida passa a ter um significado cuja abrangência supera em muito os limites impostos por padrões comportamentais que construímos durante as vivências do espírito imortal.

O olhar que liga o espírito encarnado à dimensão física é a imprescindível ferramenta para que as lições de vida tornem-se aprendizados e descobertas e jamais um calvário que trave o seu processo de crescimento.

Independentemente do que aconteceu na infância e em outras vidas, somos dotados de uma fantástica capacidade de reação e superação, mesmo em situações onde a inércia parece nos envolver de uma forma inapelável. Portanto, na direção do fluxo saudável da vida, basta-nos quebrar o paradigma de nós mesmos e despertarmos para a existência através de um olhar que contemple o mundo sem medo de desafiar a felicidade possível.

Flávio Bastos

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